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Brasileiros na terceira idade buscam alternativas de moradia compartilhada

Esqueça a imagem de comunidades hippies e repúblicas de estudantes – os adultos que se acercam da terceira idade (ou já estão nela) fazem questão de individualidade e conforto. Mas queremos amigos por perto, recusando-se à solidão. Esse mal, que atinge uma em cada três ou quatro pessoas nos países ocidentais, pode elevar em 14% o risco de morte dos mais maduros, segundo estudo da Universidade de Chicago.

O desejo de viver em proximidade com outros originou o , modalidade de habitação que reúne um pequeno grupo em um mesmo terreno. Nela, diferentemente do coliving (no qual todo mundo se junta sob um único teto), cada integrante ou núcleo familiar possui sua casa. No entanto, todos cultivam a interação, dividindo tarefas e momentos de lazer em um espaço comum, muitas vezes equipado com cozinha, e em áreas como horta, academia, piscina e tudo o mais que os membros decidirem ter. Ajudar os demais é premissa. Este modo de vida, desenhado na Dinamarca dos anos 1970, alcançou outros países europeus, além dos Estados Unidos, em especial a Califórnia, e do Canadá.

Na costa oeste canadense, na ilha de Vancouver, encontra- se a Harbourside House, fundada em 2013. Um de seus atuais residentes é o assistente social aposentado David Hannis, divorciado e pai de duas filhas. Quando chegou à comunidade sênior, quatro anos atrás, ele voltava de uma feliz experiência de trabalho na Nigéria e sentiu-se solitário no lar anterior. “Harbourside fica em um lugar lindo. O que me atraiu, porém, foi a chance de me conectar emocionalmente com os vizinhos. Tomamos as decisões por consenso e nos disponibilizamos sempre que há necessidade, como levar alguém a uma consulta ou ao aeroporto”, conta o inglês de 74 anos. Ele não deixa de alertar para as dificuldades: “Indivíduos muito egoístas ou intolerantes podem achar bastante desafiador, particularmente quando se trata de pedir socorro ou de priorizar demandas alheias.”

EXPERIÊNCIAS BRASILEIRAS

Lilian Lubochinski, 72, concorda com Hannis, mas isso não a impediu de se tornar a principal impulsionadora da tendência no Brasil. “Ela alia privacidade e convivência, e recupera vínculos perdidos com o rompimento do tecido comunitário”, afirma a arquiteta, atuante como mentora de grupos motivados a construir suas vilas. Há dois tipos delas: as intergeracionais, que estimulam o contato entre gente de diferentes faixas etárias, ou as sêniores, voltadas a quem tem mais de 50 anos.

“Empreendimentos imobiliários projetados para a terceira idade despontam no Brasil, onde este público em crescimento começa a ser visto com interesse por construtoras e incorporadoras. Contudo, ainda não há um modelo consagrado””

Atualmente, embora existam muitas iniciativas semelhantes por aqui, nenhuma já se viabilizou. A falta de exemplos nacionais impõe obstáculos. “Quando sair a primeira cohousing, várias virão. Na Dinamarca foi assim”, lembra o ex-professor de engenharia de alimentos Bento da Costa Carvalho, 74, que acabou se aprofundando no tema desde que um núcleo de colegas da Unicamp idealizou a Vila ConViver, em 2013. De lá para cá, pessoas entraram na agremiação ou saíram dela, houve muitas discussões sobre o tamanho da vila e das residências, seu modelo jurídico, as funcionalidades principais. No ano passado, por meio da associação dos docentes da universidade, os participantes finalmente adquiriram o terreno e agora se preparam para aprovar o projeto com 34 unidades para 50 moradores. “Tudo é difícil, porque no Brasil não há muitos facilitadores para o processo, a começar por arquitetos especializados”, explica Carvalho.

É PRECISO PLANEJAR

Envelhecer ao lado de conhecidos sempre esteve no horizonte da socióloga paulistana Heloísa Nogueira e de seu marido, o alemão Klaus Schubert. Aos 68 anos, eles ainda não consideram concretizar o plano. No entanto, já elegeram seus parceiros: dois casais e uma amiga divorciada. “Há uns quatro anos, começamos a falar sobre nossa comunidade. Definimos que será em São Paulo, contará com áreas coletivas e moradias privativas não muito grandes”, descreve Heloísa. E vai acolher vizinhos mais novos.“Nada contra os velhos, mas é melhor diversificar”, brinca o ex-publicitário Guilherme Sztutman, 76. Sua esposa, a corretora de imóveis Wilma Pompeo de Camargo, 68, destaca que o relacionamento com jovens contribui para o idoso se preservar atualizado. Sobre as vantagens de ordem prática, Sztutman destaca: “Gastaremos menos com uma única lavanderia e uma sala de ginástica apropriada às nossas necessidades. E poderemos contratar um personal trainer para todos, bem como um só jardineiro. Dá até para bancar um carro confortável com motorista.”

Dividir despesas também figura entre os aspectos positivos levantados pela administradora aposentada Conceição de Souza, 67, embora não seja o principal motivo para ter começado a pensar em companhia depois de 35 anos sozinha. “Quero ampliar minhas vivências sociais e as trocas”, diz Conceição, que já foi casada, porém não teve filhos. Afim de encontrar um ou dois companheiros de jornada, ela se cadastrou na plataforma Coliiv (inicialmente chamada Morar Com Você), que facilita o contato entre usuários em busca de alguém com o mesmo objetivo. Quando o sistema identifica perfis com afinidades, acontece o match, mesmo princípio dos apps de paquera. A startup, criada em 2017 por Marta Monteiro e Veronique Forat, nasceu da percepção de que pessoas da geração delas buscavam alternativas para morar, já que estão vivendo mais. Hoje com 66 e 63 anos, respectivamente, a profissional do mercado imobiliário e a especialista em marketing de relacionamento iniciaram a divulgação de seu negócio entre uma rede da mesma faixa etária. Conforme o site se popularizou, interessados de todas idades aderiram ao serviço.

Note que os personagens desta reportagem compõem a geração baby boomer, nascida pós-Segunda Guerra Mundial. Parte dela, libertária e progressista, em seu tempo questionou o papel da mulher, defendeu o sexo livre, mobilizou a sociedade em favor de negros e homossexuais, pregou ideais de paz e liberdade. Não se trata de coincidência que a mesma turma recuse o destino de ficar sob a asa dos filhos ou em um asilo.

Fonte: Casa Vogue