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Um condomínio sobre rodas: como é o veraneio de quem vai de motor home ao Litoral Norte

Carlos Macedo / Agencia RBS
Em um camping de Tramandaí, às margens da RS-030, há uma ala reservada para motor homes e trailersCarlos Macedo / Agencia RBS

No meio da multidão que pega a estrada para o Litoral Norte no verão, tem gente que já está em casa, mesmo que trancada no congestionamento. Proprietários de motor homes, ou motor homeiros, como se chamam, procuram a primeira saída para deixar o Rio Grande do Sul no retrovisor ou escolhem uma praia gaúcha para a temporada – e daí basta estacionar para começar a aproveitar as férias.

Em um camping de Tramandaí, às margens da RS-030, há uma ala reservada para motor homes e trailers (puxados por outro veículo). O resultado é uma pequena vila motorizada, com uma vizinhança unida e cooperativa.

— Um empresta a bola para o futebol, o outro, a sombra para a moto, o outro ajuda a arrumar uma caixa d’água. É muito melhor do que casa, onde a interação com os vizinhos fica pelo “bom dia, boa tarde, boa noite” — opina o músico Diego Lara de Freitas, 30 anos.

Nessa ala singular dentro do Camping Lagoa e Mar, também há enfeites remanescentes do Natal pendurados nos veículos – pois, como em muitas casas sem rodas, ainda não deu tempo de tirar – e até faixa de bixo para a filha que passou no vestibular, estendida no para-brisa. Para passar o tempo, rola futebol com as crianças na grama do camping e, é claro, um bom carteado. Através da janela do motor home do comerciante Cláudio Quaresmas, 61 anos, dava para ver seu irmão, Deoclídes da Silva, 67, e cunhado, Claudio Henn, 70, jogando canastra com apostas de R$ 1. A turma dificilmente vai à beira-mar: eles curtem a temporada no camping mesmo.

 — É carta, come e bebe — definem.

“Uns dias aqui, outros lá”

Já se aproximava das 18h, mas no lar de veraneio da família Freitas o momento ainda era de sesta pós-churrasco. A poodle Dudi tratou de ladrar alertando que chegou gente estranha, mas não foi o suficiente para acordar o funcionário público aposentado Hildo Lima de Freitas, 59 anos, que dormia no sofá. Foi a esposa dele, a autônoma Nerozilda de Fátima da Silva Freitas, 50, que puxou umas cadeiras de praia para a visita – e não aceitou que o fotógrafo ficasse em pé, dizendo que ele “já cresceu que chega”.

O motor home foi comprado há pouco mais de um mês. Foi um novo “upgrade”. Primeiro, o casal acampava em barraca. Então comprou um trailer, que acabou entrando no negócio pelo motor home, ali mesmo no camping. A família chegou para conhecer as estruturas do local e, quando se deu conta, estava fechando negócio com um frequentador, de Santa Catarina. O veículo só foi deslocado para a vaga do lado e ali ficou – nem chegou a ser levado para casa, em Estrela.

Os Freitas ainda estão em lua de mel com o brinquedo novo. A filha, Bruna, 13 anos, apresenta seu quarto, orgulhosa: uma cabine a um metro de altura nos fundos do veículo, com papel de parede, espelho que cobre uma parede inteira e roupa de cama cor-de-rosa. O motor home tem até ar-condicionado split e pia de granito na cozinha. Zilda conta que recentemente inaugurou o forno, fazendo um bolo – mas infelizmente não sobrou nada para a reportagem.

A família passou a virada em Tramandaí e pretendia ir a Santa Catarina depois. O itinerário não está bem definido, mas, para Hildo, é essa a graça.

Família Freitas comprou o motor home há pouco mais de um mês

Carlos Macedo / Agencia RBS

— A ideia é ir para tudo o que é lugar. Passar uns dias aqui, outros lá, e, se não gostar, ir adiante — conta. — Nós estamos em casa.

Todos os dias, uma paisagem diferente pela janela

A arquiteta Ariane Weber Venhofen, 60 anos, e o piloto aposentado Luiz Carlos Venhofen, 67, já viajaram pelo litoral brasileiro de motor home. A bordo do Mercedes ano 1978, que já foi ônibus de linha da Expresso Embaixador, eles conheceram Natal (RN), Maceió (AL), Guarapari (ES) e várias outras cidades.

— Você abre a janela para tomar café da manhã e a paisagem é sempre outra. Isso não tem preço — lembra Ariane.

Viajavam de março a agosto com os filhos pequenos. Quando as crianças entraram na escola, a família teve que escolher destinos mais próximos. Muito em razão das amizades que acabariam se formando, frequentam o camping em Tramandaí há mais de 10 anos.

Na tarde do último sábado, jogavam conversa fora com um casal de amigos de Canoas, que lhes acompanharia na virada de ano, e outro casal de Porto Alegre, de uma amizade feita e cultivada nos veraneios no camping. Lembranças das andanças pelo Brasil é um assunto que volta à pauta com frequência. O engenheiro de produção Carlos Eduardo Cassemiro Becker, 65 anos, conta que, parando em várias cidades e aproveitando bem a viagem, já levou um mês para ir a Porto Seguro (BA).

— Me perguntaram se fui de ré — ri Becker.

Dentro do motor home de Luiz e Ariane, a decoração é toda em madeira. E tudo o que a arquiteta precisava para a casa dela, em Canoas, comprava duplo, para ter no motor home também:

— Tenho o mesmo conforto que em casa. A diferença é que aqui é muito mais rápido de limpar.

O motor home é equipado com geladeira, fogão com exaustor, aquecedor para água quente, máquina de lavar, torradeira, forno elétrico, liquidificador, batedeira. A mesa de jantar, diverte-se Ariane, chega a ser maior do que a da sua casa: tem oito lugares. O banheiro não é grande, mas também tem box compacto com chuveiro com água quente.

“Aqui ninguém se aperta”

Na vaga ao lado, o motor home da advogada Eliane Bento, 58 anos, e do cirurgião dentista aposentado José Alfredo Bento, 73 anos é um exemplo de aproveitamento de espaço. Em apenas oito metros de comprimento (quatro a menos do que o dos vizinhos), abriga até seis pessoas. A mesa de jantar vira cama; em cima dos assentos e do volante, há uma cabine com outro colchão para casal; e, nos fundos, um quarto confortável.

— Aqui ninguém se aperta — garante Eliane.

O motor home modelo Solimar tem decoração rica em detalhes de crochê e uma cortina que Eliane mesma costurou. Na entrada, a inscrição no capacho recebe a visita e quebra o gelo: “Trouxe cerveja?”. A porta tem ainda uma série de adesivos, lembrança de encontros de motor homes. O casal participa de um clube gaúcho de “motorhomeiros”, que tem cerca de 600 pessoas, segundo ele.

Outro bom motivo para não se desfazerem do motor home é porque lembra José do seu avô. A primeira coisa que fez quando comprou o veículo foi batizá-lo de Minuano, o apelido do homem que o criou. O nome está grafado em um adesivo na carroceria.